A Educação e o Mundo Atual


Vi hoje um vídeo excelente do prof. Mario Sérgio Cortella no YouTube, em que ele coloca em cheque a perda de noção da relação trabalho-recompensa que está acontecendo em nossos jovens.

A frase “a juventude acredita que desejos são direitos” expõe corretamente o que tem ocorrido. Mas o problema não é só dos jovens ou da sociedade. Os pais e educadores são os grandes culpados disso. Esta culpa não é só pela falta deles criarem regras e uma estrutura que evidencie a relação trabalho-recompensa, mas também pelo fato de resistirem a adaptar-se, eles próprios, ao novo mundo.

Para ilustrar o ponto de que os jovens estão desconhecendo a relação trabalho-recompensa, o prof. Cortella utiliza-se de exemplos como o da pamonha. As famílias antigamente passavam o dia inteiro de sábado preparando a pamonha juntos, cada um com seu trabalho. Só depois de tudo operacionalizado e trabalhado, eles tinham a recompensa da refeição.

Acredito que, se os pais quiserem, isto pode ser replicado à um churrasco no domingo ou outra atividade interessante e atual. Porém, o ponto que quero fazer é que existe algo que os pais e professores não estão conseguindo enxergar. Poucos adultos sabem que os jovem de hoje são capazes de foco intenso, trabalho intelectual profundo, e conseguem lidar, em modo “multitarefa”, com problemas de complexidade que pouquíssimos adultos hoje tem capacidade de lidar; tudo isto para conseguir uma recompensa que realmente lhes interessa.

Esta atividade, no mundo dos jovens, se dá nos vídeo games. Os games, hoje, são o maior campo de trabalho, cooperação e conquista que existe para eles. Jane McGonigal tem um vídeo muito interessante no TED sobre este assunto e como a gamificação do mundo real tem o potencial de mudar o mundo.

Mas então por que não vemos isto na sala de aula ou nos comportamentos que os adultos querem dos seus filhos? (voltaremos a esta pergunta um pouco mais à frente neste artigo).

E quanto à perda de paciência dos jovens, que querem tudo para ontem e não conseguem ficar sentados em uma sala de aula?

A paciência é algo relativo (lá vem o relativismo ;-)). Desde o início dos tempos, a velocidade de tudo na humanidade está mudando e sempre mudou para mais rápido. Para um homem das cavernas se locomover poucos quilômetros, ele passava dias andando. Com o tempo veio o cavalo e a canoa. Depois o carro e o avião. Antigamente, um homem de Neanderthal passava a vida inteira para aprender a usar uma ferramenta. Depois vieram os contadores de historia e os professores. Depois os livros. Depois a internet. Hoje os jovens conseguem conectar teorias complexas em minutos via Wikipedia e vídeos no TED ou YouTube. Eles conseguem absorver e processar muita informação em pouquíssimo tempo.

A velocidade do mundo é outra, então, como podemos julgar a paciência dos mais jovens? Por que os adultos se acham corretos em aprender algo em alguns dias usando um livro enquanto consideram o Neanderthal e o jovem de hoje errados em aprender em anos e minutos, respectivamente? Não me leve a mal. Acredito piamente que a paciência é uma virtude, e que os que a tem possuem uma vantagem competitiva enorme frente aos que não a tem. Porém, temos que julgar ela, e os outros assuntos aqui discutidos, sempre em relação ao ambiente e a realidade em que a humanidade se encontra, e não frente a como fomos criados no passado.

Outro aspecto muito comentado da falta de paciência atual dos jovens é que eles perdem o foco muito rápido. Mas o que poucos adultos esquecem é que a velocidade que eles processam as informações é muito diferente da dos adultos. Informações que não são objetivas, coesas ou criativamente interessantes não tem mais lugar no mundo dos jovens.

Isto é certo ou errado? Não sabemos, mas eu pessoalmente acredito que isto faz parte da nossa evolução. Com a internet, temos tanta informação disponível, de tantas formas e fontes, que a própria teoria da evolução natural de Darwin se deu conta de matar, na cabeça dos jovens, as informações que não se enquadram no “objetivo e criativamente interessante”.

Antes de julgarmos que a maioria do conteúdo que jovens consomem hoje é porcaria, temos que olhar de forma geral para o nosso próprio umbigo. Jovens e adultos gostam de se divertir, e a maioria de ambos os fazem com conteúdo intelectualmente ridículo (vide: Escolinha do Professor Raimundo, piadas do português Sr. Manoel, estórias de desastres ou infelicidades de terceiros, novelas, vídeos imbecis no YouTube ou o Big Brother). O que os adultos esquecem de ver é que os jovens também consomem, juntamente com os vídeos ridículos na internet, artigos e vídeos de alta qualidade instrutiva veiculadas pela Wikipédia, pelo TED, UOL, entre outras coisas. Acredito que nada tenha mudado em termos de qualidade de conteúdo entre os jovens e os adultos. O que mudou foi somente o meio e a velocidade de consumo. Tanto os mais velhos, quando estes eram jovens, quanto os jovens de hoje, consomem tanto conteúdo ruim para se divertir e bom para se educar.

Outro ponto do vídeo do Sr. Cortella é a falta de respeito do jovem frente ao professor e aos pais. Concordo veementemente que a falta de respeito seja errada, mas de forma geral isto sempre existiu. No passado ou a falta de respeito era enrustida quando o jovem tinha que aceitar, quieto, ao que o adulto comandava, ou ele se rebelava e se desligava dos pais de forma radical. O que existe hoje é mais liberdade de expressão, o que dá espaço para mais diálogo. Hoje, não se impõe respeito só por status ou condição social, como antigamente. O respeito deve ser ganhado em cada situação, pela conversa, admiração e o exemplo, tanto na relação professor-aluno como na relação pais e filhos. Cabe aos pais e educadores mudarem suas atitudes, estarem mais presentes e se desenvolverem psicologicamente para serem capazes de negociar com jovens que são mais informados e mais espertos do que eles foram quando eram jovens.

O ponto principal da palestra do Sr. Cortella (que os jovens estão perdendo o valor do trabalho) está corretíssimo. No entanto, no meu ponto de vista, isto evidencia o despreparo dos pais e professores em adaptar-se à atualidade.

Antigamente, produtos e opções não existiam em abundância. Informações eram escarças. As escolhas eram poucas e comprar algo demandava de certo trabalho. A ligação entre a compra de um produto e o trabalho que demandava para levantar o dinheiro para esta compra era muito mais evidente. Hoje, até os adultos perderam a noção desta ligação quando usam cartões de crédito e cheque especial.

Os pais devem sim educar seus filhos colocando estrutura, criando rotina, impondo regras (e  seguindo suas próprias regras) e colocando em evidencia a relação trabalho-resultado. Mas temos que tomar o cuidado de não criar estruturas e rotinas que imponham o modo de vida e costumes antigos, mas sim algo que dê espaço para a utilização das novas ferramentas e da nova velocidade da atualidade. A relação trabalho-recompensa pode ser criada com qualquer ferramenta e em qualquer meio. O que os pais e professores devem fazer é entender que eles também devem mudar. Eles devem adaptar-se, conhecer o novo mundo e usar da criatividade e da tecnologia para criar essa estrutura, balizar suas regras, e educar para o novo mundo.

Um grande exemplo disto, na área de educação, está sendo dado por Salman Khan (reportagem de capa de revista Veja desta semana). Há alguns anos atrás, conheci a Khan Academy e achei interessante. Depois, no começo do ano passado, assisti um vídeo no TED sobre a evolução da Khan Academy, o que realmente me deixou ainda mais interessado (vale a pena o leitor assistir).

A metodologia que eles estão testando em algumas escola na California é uma em que o aluno vê vídeos de altíssima qualidade, objetividade e didática em casa (ou em algum horário específico para isto) e usam a sala de aula para discutir, ensinar os outros, ou realizar trabalhos práticos e colaborativos em relação à teoria que aprenderam. Isto, no mundo de hoje, faz mais sentido. Como um professor espera que um jovem que está acostumado a consumir informações altamente objetivas e interessantes na internet, fique sentando em uma cadeira por horas ouvindo ele falar. Se o professor não tiver a mesma altíssima qualidade didática e tornar a aula interessante, ele não vai obter a atenção dos alunos. É correto esperar que todos os professores tenham esta altíssima qualidade de didática e engajamento? Não sei. Todos somos humanos. Mas como o Sr. Khan está fazendo, existem maneiras de massificar a entrega do conteúdo nesta qualidade e numa metodologia apropriada para o novo jovem, e depois reforçar com atividades práticas colaborativas em sala de aula. O professor não deve ser colocado de lado. O papel dele como estruturador, guia, construtor e facilitador de tarefas práticas, avaliador de progresso, direcionador, customizador e mentor no aprofundamento individual continua e até aumenta. A qualidade do professor continua sendo vital, mas agora de um modo diferente.

Este é só um dos exemplos que pode vir a dar certo. Note que nele a metodologia foi adaptada ao que funciona (na prática) para o público atual. Isto pode dar certo ou não, mas o que não se pode fazer é parar de experimentar e tentar adaptar-nos à nova realidade. Como o mundo sempre muda, sempre haverá um jeito melhor. Então, sempre temos que experimentar e nos adaptar.

Para concluir, e esclarecendo a resposta para a pergunta de “por que os jovens não aplicam seu foco dispendido em vídeo games no mundo real”: isto se dá devido justamente à falha de pais e professores de entender e adaptar-se ao mundo atual, da tecnologia, que é o mundo dos jovens. Os papeis gerais de criação de estrutura e direcionamento dos pais e professores são os mesmos, apenas os métodos devem ser alterados. Temos que reforçar e evidenciar a relação trabalho-recompensa, mas temos que fazer isto de forma interessante e adaptada para os jovens. Afinal de contas, uma coisa que não podemos fazer é julgar os jovens através do modelo de vida da época em que fomos criados.

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