Banco 2.0 – Como os Bancos Poderiam Ser na Era da Internet (parte 1)


No artigo anterior, falei sobre o que me frustra nos bancos brasileiros, particularmente no quesito de serviços online. Neste e nos próximos artigos escreverei sobre o que gostaria de ter como cliente de um internet banking. Colocarei minha perspectiva, com um olhar de quem já utilizou bancos internacionais e de quem participou na concepção e lançamento de empresas de internet. Algumas das idéias aqui ainda estão cruas, mas acredito que merecem serem desenvolvidas.

Seguem as principais funcionalidades e conceitos que um banco na era da internet deveria possuir:

1) Layout limpo + Usabilidade

A primeira impressão de quando voltei da Australia e me loguei no meu banco brasileiro foi de espanto. Fiquei impressionado com a quantidade de informação, de links, e de coisas que tinha na minha tela principal. Para um serviço web, isto não é muito bom. A tela tem que ser limpa, somente com informações principais. Os menus e a navegação tem que ser intuitivos, fácil de encontrar o que se quer. Os internet bankings brasileiros, mesmos as versões atuais dos principais bancos ainda deixam muito à desejar em limpeza de layout e usabilidade. Estamos no tempo em que a Apple ensinou ao mundo que simplicidade, elegância e usabilidade em design são as coisas mais importantes para se tornar a empresa mais valiosa do mundo.

Dá para se ver, nas ultimas versões dos internet bankings atuais, que estão tentando ir neste caminho, mas o problema está mais fundo, em como o próprio banco enxerga e trata os seus próprios produtos financeiros. A estrutura dos produtos e informações tem que ser repensada para o ambiente online.

onlineBankingMorph

2) Login por usuário, não por conta.

Eu não sou uma conta, sou uma pessoa. Posso ter mais de uma conta ou produto financeiro em um banco. O banco certamente quer isto. Sim, normalmente se possui uma conta principal, mas toda a experiência bancária online não pode ser centrada em um só produto financeiro, como é feito hoje pelos bancos brasileiros.

Imaginem o cenário de uma pessoa possuindo: uma conta corrente, uma conta de investimento em CDB-DI, uma conta conjunta com sua/seu esposa(o), 2 cartões de crédito, um financiamento de carro e um empréstimo pessoal, tudo com um só banco. Hoje, ao logar-se no seu internet banking brasileiro, ele verá somente a sua conta corrente e terá que cavar, individualmente nos menus, todos os outros produtos para saber seus saldos, posições atuais, etc.

No banco da era da internet, todos os produtos que possuo deveriam estar resumidos na primeira tela. Em meu banco na Australia, ha 10 anos atrás, eu já conseguia ver todas as minhas contas assim. É uma página simples, como na figura abaixo (contas e valores fictícios).

Saldo contas

Na tela acima, as contas possuem nomes, não números. Eu posso customizar os nomes delas e também os grupos em que estão organizadas. Eu organizo minha tela principal com informações que fazem sentido para mim, e somente com os produtos que eu possuo. No meu banco na Austrália, eu podia, inclusive, ver as contas das empresas e de outras entidades que eu possuía acesso. Eu as deixava agrupadas em um grupo específico excluindo elas do cálculo do meu patrimônio líquido. Se o usuário quiser saber mais detalhes sobre cada conta, é só clicar sobre ela. Ainda na tela principal, um resumo, que ficaria logo abaixo dos saldos de todas as contas, te informaria a sua posição geral junto a este banco.

Posic Consolid

Este conceito é simples, mas fico me perguntando o porquê os bancos brasileiros não implementam.

3) Tratamento de contas de cartão de crédito (e de financiamentos) como conta corrente.

É impressionante também como os bancos conseguem complicar as faturas de cartões de crédito. No meu banco brasileiro, quando abro a fatura no internet banking, ela é apresentada da mesma forma que no papel: muito complicada. Em vez disso, estas contas poderiam ser apresentadas como as contas correntes, com transações e saldo em uma lista simples e ordenada por data. Deveríamos ter a possibilidade de agrupar as transações como quisermos: por mês, por corte da fatura; e deveríamos poder pesquisar o extrato por: período de data a data, pesquisa na descrição da transação, etc. O fato de que se deve pagar a fatura em uma data específica não precisa interferir na apresentação dos gastos ao usuário, que devem ser contínuos e passíveis de serem pesquisados e agrupados por períodos determinados por ele.

Outro ponto referente aos cartões de crédito é quando se paga o mesmo com um ou poucos dias de atraso. Não sei o que acontece para você, leitor, mas se pago com 1 dia de atraso, o dinheiro do pagamento some da conta corrente e só vai aparecer como limite disponível no cartão de crédito na data da próxima fatura, quase 1 mes depois. Qual a razão da não liberação do meu limite de crédito neste caso? O dinheiro foi para o limbo neste período? O valor já foi pago e veio da conta corrente do mesmo banco! Os juros só devem ser cobrados em cima dos dias atrasados, ou de acordo com o contratado com o seu cartão, mas quando se paga, o dinheiro teria que entrar como liberação de crédito em sua conta no mesmo dia (como uma conta corrente).

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4) Extratos de 10 anos

Ainda hoje entrei no internet banking de uma conta de empresa que tenho acesso e o site não me permite ver transações de mais de 60 dias atrás. E esta versão do site foi lançada há poucos meses. Limite de somente 60 dias de transações passadas na conta corrente, para uma empresa?!. Realmente isto é uma limitação sem sentido. Para minha conta corrente pessoal, já aumentaram o período para 11 anos (finalmente), mas o cartão de crédito ainda apresenta somente os últimos 12 meses de faturas (e daquele modo complicado). Este período aumentado de histórico seria algo que os bancos cobram adicionalmente de empresas? Se sim, não acho correto, pois é informação básica e essencial, Também se sim, por que o banco não me oferece isto ali na própria página, dentro do contexto? Se não, como não conseguem? Na Austrália, há 10 anos atrás eu já podia ver 7 anos de histórico. Por que no Brasil eu não posso, sendo que nossos bancos fazem muito mais dinheiro que os Australianos?

5) Criação de novas contas e/ou sub-contas online.

Quantos de nós nunca quisemos repartir nosso dinheiro em contas diferentes para fins diferentes? A grande maioria dos livros de finanças pessoais indicam que se deve reservar 10% dos seus ganhos para investimentos, 10% para doações, etc. Mas no modelo de contas bancárias que temos hoje no Brasil isto é muito complicado de fazer. E se eu quiser ter uma aplicação em CDB-DI para guardar dinheiro para uma viagem de final de ano e outra para comprar um carro novo? Tenho que abrir contas de investimentos separadas ou colocar tudo em uma conta e separar no Excel.

Na era da internet, os bancos deveriam permitir que se abra e feche contas online, em poucos cliques, sem a burocracia de se aparecer em uma agência. Quando a primeira conta já está aberta, os bancos já possuem todos os seus dados de cadastro. Você já pode autorizar pagamentos e transferências usando sua assinatura eletrônica e ferramentas de segurança (senha, token, etc.). Por que ainda não se pode abrir novas contas correntes ou de investimento com facilidade?

Se a burocracia jurídica for muita, sendo necessária a presença física, tenho uma alternativa para isto: abertura de sub-contas virtuais. Você já possui o contrato da sua conta corrente ou conta de investimento assinado. Nada impede que o banco te apresente divisões ‘virtuais’ destas mesmas contas, derivando todas as suas características, somente para você se organizar pessoalmente. Do ponto de vista financeiro e jurídico, a conta seria uma só, mas uma simples ferramenta online pode dividir estas contas virtualmente para ajudar a te organizar.

FinanceWorks

Estes são pontos básicos, simples, mas que há muito tempo já deveriam ter sido implementados e ainda não foram, ou estão ainda em fases de implementação nos bancos brasileiros. No próximo artigo desta série, colocarei funcionalidades um pouco mais avançadas mas que já são possíveis hoje e que melhorariam em muito a nossas vidas financeiras (o melhor ainda está por vir). Dentre elas estão: crowdsourcing para gestão financeira pessoal automática, uma ferramenta simples de pagamento via celular que todo banco poderia implementar ontem, e algumas outras coisas.

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2 respostas em “Banco 2.0 – Como os Bancos Poderiam Ser na Era da Internet (parte 1)

  1. Fala Kiko,

    Alem do que voce ja mencionou (demais por sinal), eu acho que seria legal poder fazer uma analise de como o dinheiro esta sendo gasto (com graficos, etc). Acho que o banco deveria fornecer ferramentas de educacao financeira para todos os usuarios.
    Transferencia de valores por celular para quem tem conta no mesmo banco usando so o numero do celular da outra pessoa (como fazemos aqui na AUS).
    Abracao!

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